Violência obstétrica

 

Me acostumei com a dor
O tempo passando
Ela cortando
O corpo e a alma
E eu ali
Sem poder parar
Mas sentindo
Correria danada essa vida
É aluguel
É comida
Me acostumei com a dor
Aquela que dói o bucho
Se espalha
Bexiga
Intestino
Pernas
Costas
Estomago
Passei por cima
Sorria e doía
Doía e sorria
Agora dói e eu choro
Choro por que sei
Que me acostumei com a dor
É cruel
Pra se curar as dores
É necessário revelá-las
E tudo começou
No primeiro corte
E o conforto que me deram?
Aguenta menina! você é uma mulher forte.



		
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ME RESPEITA!

ME RESPEITA!

E eu que vim de la de Poço Verde
Que vi minha mãe apanhar
Que apanhei igual
Que tirei meu couro
Estendi sol, vesti de novo
E vim parar na capital
Me respeita!
E eu que criei uma menina
Menina rejeitada
Que tive que ensinar amor
Mesmo sem ser amada
Me respeita!
E eu que já passei fome
E hoje só fico feliz
Se tem comida na geladeira
E vejo gente achar
Que isso é besteira
Me respeita!
E eu que tentam embraquecer
Mas que vivo assim
Latejando o sentido da vida
Por dentro enegrecida
E por fora a encardida
Me respeita!
E eu que sou mais ligeira
Do que seu pensamento
Que corto como um raio
E sou livre como o vento
Me respeita!
E eu que odeio macho
E não me venha
Com bestagem
Por que eu sei quem sou
E o que não me falta é coragem
Me respeita!
E eu que amo as mulheres
Que vivo e gozo com elas
Que crio e me reinvento
Sou uma entendida
Sapatão cheia de sentimento
Me respeita!
E eu que nem sabia que era poeta
Que nem pensava no que escrevia
Que a poesia estava nos olhos
E na realidade do dia
Misturada com a opressão
De quem fingia que não me via!
Me respeita!

Imaginação

Nem sabia que era poeta

Nem pensava no que escrevia

A poesia sempre teve nos olhos

Na realidade do dia a dia

Se misturando com a opressão

De quem fingia que não me via

 

Agora tô espalhada na vida

Escrevo verso sem engasgar

Na hora que bate a vontade

Que se alivia o meu pensar

Boto pra fora em palavras

Sem ninguém pra reclamar

 

Já tive bastante sonhos

Todos simples de viver

O mais difícil tenho certeza

É o da minha arte sobreviver

Receber bolsa de universidade

Pra poesia poder escrever

 

Já pensou na quantidade

De poeta circulando?

Um monte de maravilhosa

Os seus versos recitando

Registrando suas histórias

Fico só imaginando.

Amigas

As vezes eu sofro de um mal

O mal de me botar pra baixo

Achar que não sou capaz

Pensar que eu não me encaixo

Só desperto com um alerta

Da amiga me dando esculacho

Ela vem e me diz assim:

Mulher deixe de aluamento

Você é foda, te admiro

Deixe de tanto lamento

Vamos seguir caminhando

Se você cair eu lhe sustento

E essa é a roda que gira

É coisa linda, surpreendente

Você deixa de ser bagaço

E se sente outra vez potente.

 

Respirar e liberar

Não durmo direito

Acordo agitada

Não sei se é medo

Ou revolta acumulada

Se paro um instante

Já me sinto culpada

 

Hoje acordei pensando

Quero gastar minha vida

Tanta gente morrendo

Tanta dor tão doída

E eu ainda amarrada

Nessa história reprimida

 

Falar, gritar, enfrentar

Gasta uma energia danada

Eu sou do lado daquelas

Que não são privilegiadas

E enquanto elas adoecem

As outras vão ficar caladas?

 

Murro em ponta de faca

É ditado certeiro

Não adianta eu lhe dizer

Se você não pensa primeiro

Quem é que ta la na frente

E quem vem por derradeiro

 

Sei que o “grande mundo”

É uma coisa importante

Mas não sou heroína

Não posso ir tão distante

Por mais que a tecnologia

Torne a vida inquietante

 

Existe uma onda forte

Pairando e apertando a mente

Pra mim ja chegou a hora

Hora de pensar na gente

Liberar, entender, respirar

Se sentir menos frequente

 

E a formula eu já sei

Já fiz isso no passado

Caçava meio de sobreviver

Com as outras do meu lado

Comemorando a existência

Deixando o mal incomodado.

 

Não se pode ser feliz

No sentido de eternamente

Mas tente afastar de você

Aquilo que lhe deixa doente

Desafogando o coração

Pra seguir mais livremente.

 

 

Endometríaca

A oscilação no meu corpo

Não é uma coisa inventada

As vezes melhoro do bucho

Mas as costas tão cansadas

Tô querendo gente por perto

Que me ajude a dá risada

Por que não posso mentir

Muito difícil a caminhada

Não há problema dizer

Melhor que ficar engasgada

Nem sei se escrevo verso

Ou minha dor poetisada.