Conversa de calçada

( inspirada na conversa com Elisa Aníbal de Passira/PE)

Sou pessoa de lembranças
Não sei bem sentir saudade
Me lembro da andança
E me vem logo a realidade
Esse é o meu sentimento
Quando o meu pensamento
Vai viajar pela minha cidade

Tem uma coisa que não esqueço
E me faz bem demais lembrar
As conversas na calçada
Que eu tinha no meu lugar
Tanto desabafo da vida
Tanta história comprida
E amiga boa pra escutar

Debaixo daquele céu
Sentadas no meio-fio
As vezes fugindo do calor
Em outras encarando o frio
Uma garrafa de café
E uma gata lhe dando susto
Aos grito entrando no cio

De tudo a gente conversava
Não me lembro de julgamento
A gente não tinha tempo
Pra analisar e fazer lamento
Tudo era natural
A gente achando normal
E transbordando sentimento

As vida tudo parecida
A diferença era quase nada
Umas que já tinha filho
Tentando ficar mais animada
Planejando a festa de janeiro
Esperada o ano inteiro
Pra gente ficar mal falada

Vou dizer que sinto saudade?
Mentira se assim eu poemar
Juventude esquecida
Queria mesmo era trabalhar
Nem pensava em faculdade
E o sonho era um só
Ajudar a mãe e se sustentar

Mas de uma coisa tenho certeza
Sou quem sou porque vim de lá
As vezes escuto besteira
De quem num tem o que falar
Que fica romantizando
Meu sertão tão castigado
Que por culpa do estado
Força a gente a se espalhar.

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Relaxe

Senta um pouco
Vamos conversar
Não há mal que não se cure
Você precisa tentar
Tem dias que é de tormento
Eu choro, me entristeço
Grito logo EU NÃO AGUENTO
Já tem outros que são leves
Como a frescura do vento
Somos sensíveis e fortes
Mistura doida em movimento
O que eles mais gostam
É de ver nosso sofrimento
Pois agora eu vou dizer
Só me dou a chance de lutar
Desabafo só com as chegadas
Na hora certa e lugar
Por que a minha vingança
Achem ruim ou não
Será o direito de relaxar

Configuração

Minha ferida

corta

queima

aperta

dói

Não curo minha dores com sorvete

não consigo

não é o costume

me fecho e me abro

com cerveja

com maconha

com cigarro

A liberdade pra mim

é isso

fazer o que?

Só vou fluir com quem sinto energia

o resto é disfarce

mania

Coisa de quem tá pelo mundo

De cedo

Se virando

Se revirando

Se arrombando

E seguindo em frente

Não me peça pra ser positiva

Já sou! tive que nascer assim

Quer dizer

Não me peça nada

Não devo nada pra ninguém

O que tenho já sai em verso

Se quiser pegue no ar

Minha poesia

As vezes raio que corta

Outras esperança que vem

Mas não se engane

A mais leve

É sempre ventania.

Sinceramente

Não tenho culpa de olhar e já vê
De sentir
Perceber
De engasgar
De doer
De falar
Me espremer
De sacodi
E lascar
Tô aqui pra sobreviver
Num lugar que me foi tomado

Violência obstétrica

 

Me acostumei com a dor
O tempo passando
Ela cortando
O corpo e a alma
E eu ali
Sem poder parar
Mas sentindo
Correria danada essa vida
É aluguel
É comida
Me acostumei com a dor
Aquela que dói o bucho
Se espalha
Bexiga
Intestino
Pernas
Costas
Estomago
Passei por cima
Sorria e doía
Doía e sorria
Agora dói e eu choro
Choro por que sei
Que me acostumei com a dor
É cruel
Pra se curar as dores
É necessário revelá-las
E tudo começou
No primeiro corte
E o conforto que me deram?
Aguenta menina! você é uma mulher forte.



	

ME RESPEITA!

ME RESPEITA!

E eu que vim de la de Poço Verde
Que vi minha mãe apanhar
Que apanhei igual
Que tirei meu couro
Estendi sol, vesti de novo
E vim parar na capital
Me respeita!
E eu que criei uma menina
Menina rejeitada
Que tive que ensinar amor
Mesmo sem ser amada
Me respeita!
E eu que já passei fome
E hoje só fico feliz
Se tem comida na geladeira
E vejo gente achar
Que isso é besteira
Me respeita!
E eu que tentam embraquecer
Mas que vivo assim
Latejando o sentido da vida
Por dentro enegrecida
E por fora a encardida
Me respeita!
E eu que sou mais ligeira
Do que seu pensamento
Que corto como um raio
E sou livre como o vento
Me respeita!
E eu que odeio macho
E não me venha
Com bestagem
Por que eu sei quem sou
E o que não me falta é coragem
Me respeita!
E eu que amo as mulheres
Que vivo e gozo com elas
Que crio e me reinvento
Sou uma entendida
Sapatão cheia de sentimento
Me respeita!
E eu que nem sabia que era poeta
Que nem pensava no que escrevia
Que a poesia estava nos olhos
E na realidade do dia
Misturada com a opressão
De quem fingia que não me via!
Me respeita!

Imaginação

Nem sabia que era poeta

Nem pensava no que escrevia

A poesia sempre teve nos olhos

Na realidade do dia a dia

Se misturando com a opressão

De quem fingia que não me via

 

Agora tô espalhada na vida

Escrevo verso sem engasgar

Na hora que bate a vontade

Que se alivia o meu pensar

Boto pra fora em palavras

Sem ninguém pra reclamar

 

Já tive bastante sonhos

Todos simples de viver

O mais difícil tenho certeza

É o da minha arte sobreviver

Receber bolsa de universidade

Pra poesia poder escrever

 

Já pensou na quantidade

De poeta circulando?

Um monte de maravilhosa

Os seus versos recitando

Registrando suas histórias

Fico só imaginando.